Literatura
De novos autores
por César Freitas
09-10-2006 recensão de Os Ilhados, de Naomi York
As ilhas humanas ou a perscrutação da identidade
Imerso numa sociedade despojada de valores espirituais, Marcos Alberto, um pernambucano de meia-idade, sente-se um ilhado entre aqueles que o rodeiam. Instigado por um anelo de indagação e reconstituição da sua identidade, navega incessantemente por um mar de sonhos que circunda a ilha avistada de sua casa, misteriosa imagem matizada de terra, mar e céu, tonalidades usadas pelo narrador para figurar os anseios desta personagem.
Num texto em que a voz do narrador se sobrepõe ao pensamento do protagonista, a ilha - com as suas palmeiras e os imaginados nativos apenas divisados sob forma de silhueta -, entidade material, sedutora, mística quase, infunde continuamente a Marcos Alberto a fantasia, a insatisfação, a busca da novidade, em flagrante contraste com as ilhas fomentadas pelo mundo contemporâneo, espaços que não se definem no domínio geográfico mas antes político e religioso, habitados por seres humanos mergulhados numa vida exígua de materialismo e cegueira espiritual.
Composta por elementos antitéticos mas que se complementam - terra (conotada com a secura) e água (identificada com a vida) -, esta ilha, de início humanizada pela comparação com um gigante prostrado nas águas do oceano, metaforiza os contrastes que conformam o próprio ser humano: "Às vezes, ele mesmo é a ilha com a qual precisa se encontrar" (p.20). Com efeito, assim como a ilha se estrutura em dicotomias como terra/ mar ou terra/ céu, o ser humano é determinado pela divisão interior, espelho estilhaçado como as peças de um puzzle à espera de ser reconstruído.
Em Os ilhados, a alteridade e a dificuldade de comunicação que acomete o sujeito (tema recorrente na literatura contemporânea, colocando a identidade do sujeito em conexão com o próprio espaço - leia-se, por exemplo, "Os Comboios que vão para Antuérpia", conto de Herberto Hélder, in Os passos em volta. Lisboa: Portugália, 1963), reverte numa incitação à compreensão do desconhecido, ao conhecimento do outro, do frágil negro, do índio genuíno, e a uma comunhão com a natureza intacta e um diálogo aberto entre as diferentes culturas. Divergindo das restantes personagens, resignadas a uma vida rotineira, o protagonista entrega-se a uma infinda perscrutação do Absoluto, do Homem Ideal, posto que tanto os deuses da antiguidade greco-latina como o próprio D-us foram substituídos por meros rostos da TV, das artes, do desporto.
Subjugado pela fantasia de visitar a sua ilha, entregando-se a uma constante meditação em frente ao mar, Marcos Alberto instaura na sua vida uma poética do silêncio que estimula a imaginação e a liberdade. Ansiando partir em direcção à ínsula misteriosa, e na sua solidão conservar o espírito crítico que o desenleia dos ideais emanados pela sociedade, manifesta a "vontade imensa de abandonar o barco da civilização para ser um ilhado tão solitário e firme quanto a ilha" (p.166). No entanto, ciente de que encontrar a ilha é, antes de mais, encontrar-se, como se um lampejo de lucidez quebrasse o feitiço que o sujeita, Marcos Alberto acaba por renunciar ao seu projecto de alcançar a ansiada ínsula para se entregar ao amor que nutre pela família. Curiosamente, num exercício de correspondência que contrapesa a sua resignação, atribui a Solanginha, sua filha, o fascínio das palmeiras que ondulam ao vento e considera Cremilda, sua afectuosa mulher, a ilha que o aguarda diariamente.
De forma significativa, após voltar as costas à ilha, Marcos Alberto experimenta um enigmático impulso para entrar num edifício branco, onde se extasia perante "paisagens de mar e praias iluminadas pelas forças dos céus" (p.170). Arrebatado por estas imagens, fá-lo, no entanto, num museu, como se correspondesse a uma paixão transcorrida, a uma memória da ilha que agora poderia perpetuar através da contemplação dos quadros, sem incorrer em perigos nem se distanciar da família.
Com uma sintaxe da diegese que de certa forma corresponde aos antagonismos civilizacionais, este romance estrutura-se em dois níveis narrativos concernentes à alternância entre a história ficcional de Marcos Alberto e a focalização eminentemente crítica do narrador. Deste modo, apresentando uma modalidade de enunciação que se reparte entre o idealismo de Marcos Alberto e os excursos ideológicos do narrador, esta obra proporciona ao leitor uma construção narrativa de ficção que equaciona algumas das mais prementes inquietações humanas perante a célere e irrefreável mutação da nossa sociedade.
Analisando a acção dos principais intervenientes no xadrez político da actualidade, Naomi York carrila para este seu romance inaugural múltiplas reflexões, através de uma incursão pela História que parte dos gregos e romanos, passando pelos descobridores portugueses, pela influência geopolítica de ilhas como a Inglaterra, o Japão ou Cuba, e o crescente conflito político-religioso no Médio-Oriente, com particular relevo para a situação de Israel¬. Como se de um jogo de cartas se tratasse, expõe abertamente os jogadores que misturam e repartem o baralho: "Este mundo não é uma experiência, é antes um jogo de cartas abertas, uma a uma" (p.32-3). Assim, para participar neste jogo, é necessário conhecer as regras, dominar os códigos político, religioso, filosófico, histórico...
Apesar das dualidades que estruturam tanto a ilha quanto o ser humano, em Os ilhados, protagonista e narrador complementam-se na demanda do conhecimento e da verdade por entre os elementos definidores da ilha (mar, terra, céu, sonho), pensamento que perpassa, entre outros, a obra de Sophia Mello Breyner Andresen, por exemplo no poema "As Ilhas - V": "Ali vimos a veemência do visível / O aparecer total exposto inteiro / E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar / Era o verdadeiro" (Navegação. Lisboa: IN-CM, 1983).
Escritora atenta às tensões mundiais - enunciadas com argúcia e criatividade em pequenas narrativas ficcionais divulgadas online http://new-faith.blogspot.com - Naomi York, pseudónimo de Cíntia Caracushansky, nasceu em São Paulo em 1972. Cursou AAS em Ilustração em Nova York, na Parsons School of Design, em 1992, e estudou Letras, com especialização em tradução do Espanhol, na PUC de São Paulo entre 1996 e 2000.
Naomi YORK - Os ilhados. São Paulo: Scortecci, 2005. 170 páginas.
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Tuesday, November 21, 2006
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